
Desta vez há unanimidade. Os cerca de 20 milhões de moçambicanos dizem em uníssono que fomos roubados pelo árbitro sul-africano. Não é mais uma daquelas desculpas que já nos habituamos a ouvir, muitas vezes lembrando a máxima "quando o macaco não consegue dançar diz que o chão está torto", não senhor, de facto fomos espoliados e o mundo viu.
Quando tudo indicava que sairíamos de Antananarivo com um sorriso rasgado nos lábios, eis que uma vez mais, alguns sul-africanos, mal intencionados, diga-se, tiram-nos este prazer. Ganhando o jogo do fatídico domingo, os Mambas não só relançariam as suas esperanças rumo à qualificação para o tão almejado Mundial de 2010 e para o CAN do mesmo ano em Angola, como também ajudar-nos-iam a sarar algumas feridas, embora profundas, provocadas pela onda de xenofobia perpetrada pelos sul-africanos. Não é por acaso que o futebol é o ópio do povo.
Os milhões de moçambicanos que presenciaram as imagens que chegavam pela televisão nem sequer queriam acreditar no que viam. É que o árbitro sul-africano, Abdul Basit Ebrahim, por indicação do seu auxiliar que actuava do lado direito do ataque malgaxe, decide nos apunhalar pelas costas, assinalando uma grande penalidade "fantasma", já ao cair do pano, manchando por completo a sua triste actuação. Pura roubalheira. Aqueles senhores deviam ter vergonha na cara. Com aquela postura do árbitro, ressurgiram as marcas indeléveis da xenofobia, que aliás dificilmente se apagarão. Em todas as conversas dos moçambicanos vinha à tona este aspecto.
As imagens são tão elucidativas que a FIFA nem sequer devia ter contemplações, irradiando aqueles juizes, que num ápice são capazes de deitar por água abaixo, todo um esforço de uma selecção e a esperança de todo um povo.
Mal o árbitro levou o apito à boca, dando início ao jogo, era notória a sua tendência no encontro, prejudicando claramente a nossa selecção. Não obstante este posicionamento do trio sul-africano, os nossos rapazes iam se batendo com o brio profissional que os caracteriza.
Eu, sinceramente não esperava tal postura dos juizes oriundos de um dos países economicamente estáveis de África. Esperava que a arbitragem fosse um tanto ou quanto simpática connosco, pois grande parte dos componentes da nossa selecção jogam na África do Sul, e são muito bem conhecidos do juiz sul-africano. Mas para a minha frustração e de tantos outros compatriotas, o trio sul-africano aliou-se aos ilhéus do Madagáscar, Comores e Maurícias, para nos "tramar", abrindo, novamente, as feridas dos moçambicanos vítimas dos ataques xenófobos na Terra do Rand. Aliás, um dia antes, um outro moçambicano havia sucumbido diante dos desumanos e gananciosos sul-africanos.
A África do Sul, na sua qualidade de organizadora do Mundial de Futebol de 2010, não merece ter árbitros daquela estirpe, que se deixam manipular facilmente, prejudicando os interesses de toda uma Nação. Desta vez, a verdade desportiva foi gravemente ferida.
Estas situações fazem-me duvidar do sucesso do Mundial de 2010 na África do Sul. Não há seriedade suficiente na África do Sul e os índices de criminalidade são bastante elevados. Que postura terão os adeptos sul-africanos caso sejam eliminados precocemente do Mundial, em 2010?
Por tudo o que aconteceu naquela tarde de domingo, em Antananarivo, proponho à Federação Moçambicana de Futebol a pagar o prémio de jogo aos briosos Mambas, em reconhecimento do seu esforço. Outrossim, os 600 dólares serviriam de força motivadora aos nossos rapazes para o jogo da quarta de jornada que, se diga em abono da verdade, não vai ser nada fácil. Temos que marcar golos, pois os malgaxes também têm uma palavra a dizer. Todos vimos isso no domingo passado.
No jogo de domingo seria bom para as nossas aspirações, vencer o jogo. Não entremos em euforias. Se quisermos desforrar, que seja dentro das quatro linhas, mantendo assim o espírito desportivo. O discurso da última semana não deve ser encorajado, pois todos lamentamos o que aconteceu em Antananarivo. Aquele tipo de situações não dignifica a ninguém. É verdade que os malgaxes amealharam um ponto, mas sem o devido sabor, do que quando conquistado por mérito próprio.
Termino apelando a todos, para que no domingo se desloquem à Machava, por forma a puxar pela selecção, quer nos momentos fáceis, quer nos difíceis da partida. Nada de violência, vamos bater os malgaxes em campo, sem ajuda de árbitro algum. Como precaução, que a segurança seja reforçada nesse dia para evitar dissabores.
Carta publicada no Notícias 21.06.2008
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